O esporte no Brasil gira muito em torno do futebol. Afinal de contas, o país é pentacampeão mundial da modalidade mais popular do mundo e tem um dos campeonatos mais competitivos do planeta. Mas assim como em qualquer segmento, o mercado profissional tem carências, no próprio futebol e especialmente nas outras modalidades. E para saber onde o esporte brasileiro pode melhorar, o Sport Insider conversou com algumas pessoas que vivem e respiram essa indústria.

Carência na formação de treinadores

Sob o ponto de vista de staff técnico, ou seja, dos profissionais que trabalham para que times e atletas atinjam os resultados, o consenso é que há sempre espaço para mais capacitação. Para a ex-ginasta Soraya Carvalho, atual gerente do Instituto Olímpico Brasileiro (IOB), uma das principais deficiências do esporte no Brasil se encontra nas faculdades de Educação Física.

“De uma maneira geral, hoje, a maior parte das nossas universidades formam o profissional de Educação Física para licenciatura ou para o mercado de fitness. Então, acho que existe uma lacuna de treinadores de alto rendimento para diversas modalidades”, diz Soraya. “É claro que temos exceções. Mas, de uma maneira geral, as universidades têm dificuldades de formar treinadores extremamente especializados. E o esporte de alto rendimento é muito específico e com um mercado de trabalho muito particular”, completa.

Capacitação

Entre os cursos de capacitação realizados pelo Instituto Olímpico Brasileiro (IOB), há aulas específicas da chamada Academia Brasileira de Treinadores, cujo foco é “formar futuros Bernardinhos”, segundo Soraya.

“A Academia Brasileira de Treinadores é um programa de capacitação extremamente aprofundado e muito específico em cada modalidade, de modo que a gente consiga capacitar o profissional de acordo com as necessidades daquela modalidade”, revela a gerente do IOB.

Falta de cultura do esporte no Brasil

Para o jornalista Marcelo Barreto, apresentador do canal Sportv, uma das carências do esporte no Brasil é a falta da construção de uma cultura esportiva.

“Em 2007, durante os Jogos Pan-Americanos do Rio, um grupo de atletas cubanos esteve nos estúdios do Sportv para uma entrevista. E no fim, a atleta Ana Quirot chamou o Fernando Meligeni, um dos nossos comentaristas na época, pois percebeu que ele falava espanhol. E eu ouvi a seguinte frase dela: ‘este país precisa de cultura esportiva’. Então, eu acho que tem um campo no Brasil que precisa ser desenvolvido de educação esportiva e de cultura esportiva” diz Barreto.

Marcelo Barreto – Apresentador do Sportv

O apresentador ressalta que não sabe dizer se há uma oportunidade de mercado, mas considera fundamental que se invista na construção dessa cultura.

“Não sei se é um tipo de mão de obra que pode surgir no mercado. Mas eu sinto que é algo que o esporte brasileiro precisa. A gente precisa criar, inclusive, cultura de espectador, de torcedor. O brasileiro se empolga na hora dos Jogos Olímpicos, nos Jogos Pan-Americanos, e depois larga os esportes. Então, eu acho que tem um caminho aí nesse encontro de esporte e cultura e esporte e educação”, analisa o jornalista.  

Legado dos eventos esportivos

Conversamos também com Paulo Wanderley, presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB). Ele destacou a experiência proporcionada pelos recentes eventos sediados pelo Brasil, como os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016 e a Copa do Mundo de 2014.

“Houve uma melhora substancial após os Jogos Olímpicos. O conhecimento aumentou absurdamente na gestão, na administração do negócio esporte no Brasil. Foram criadas situações e condições para que os profissionais que atuam na área fossem ainda mais capacitados. Hoje, nós temos profissionais brasileiros trabalhando no mundo inteiro, gerenciando Jogos Pan-Americanos, Jogos Sul-Americanos, Jogos Olímpicos da Juventude. Agora na Copa América, vários profissionais que trabalharam conosco nos eventos recentes estão envolvidos. Então, acho que esse foi um grande legado que tivemos na área do esporte. E está melhorando cada vez mais”, afirma o presidente do COB.

Profissionais do Direito

Para Paulo Wanderley, carências sempre vão existir, em todos os segmentos. O executivo defende que eu o mercado precisa aumentar, para que a demanda por mão de obra possa ser atendida. E aponta o Direito como um dos segmentos em que o esporte brasileiro anda mais carente.

Paulo Wanderley – Presidente do COB.

“Eu acredito que uma área que precisa se desenvolver mais é a do Direito. Não só o Direito Esportivo, pois nós temos profissionais excepcionais nessa área. Falo no Direito público, na governança, por exemplo – as entidades esportivas precisam de muita orientação de pessoas que trabalham nessa área específica. E de vários outros segmentos do Direito, que sempre terão demanda no mercado esportivo”, diz Paulo Wanderley.

União de todos os setores

Atual Secretário de Esporte e Lazer do Rio Grande do Sul, o ex-judoca João Derly aponta para a gestão, de um modo geral, como o calcanhar de Aquiles do esporte no Brasil. E prega uma maior união entre todos os agentes desse mercado.

“Uma das coisas que eu percebo é a falta de planejamento a longo prazo. Nós precisamos tentar visualizar o que nós queremos no futuro, no desenvolvimento do esporte. Planejar onde nós queremos chegar e de que forma a gente consegue chegar. E aí, acho que precisa de uma união maior do esporte brasileiro. A carência na parte de gestão é evidente. Não só para o esporte, mas para tudo. É preciso ter uma ênfase em gestão, na capacitação dos gestores, de ex-atletas, de todos que fazem parte do universo esportivo, que é muito mais amplo do que se imagina. Se não tiver essa preocupação com a gestão, não tem como desenvolver o esporte”, diz Derly.