Em 2010, a FIFA anunciou que a Copa do Mundo de 2022 seria sediada no Catar, país peninsular árabe que se tornaria o primeiro do Oriente Médio a sediar o maior espetáculo do futebol do mundo. Na época, o Catar classificou a sua oferta à FIFA como uma “aposta ousada” para trazer o futebol mundial para a nação do Golfo, sustentando a proposta com a promessa de um investimento de cerca de US$ 200 bilhões para o evento.

Atualmente, a apenas sete meses do torneio, o orçamento prometido já foi superado e a Copa do Mundo mais cara da história está prestes a ser realizada, com um custo estimado de US$ 220 bilhões. Porém, em meio a acusações de suborno e abusos de direitos humanos, a Copa do Catar também pode se tornar uma das mais controversas.

A Copa mais cara da história

Para sediar um evento da magnitude de uma Copa do Mundo e colher os frutos desse grande campeonato esportivo mundial, um país precisa se preparar para investir um valor significativo em infraestrutura. Isso se aplica a nações desenvolvidas que já possuem uma infraestrutura avançada, mas principalmente a países que precisam investir em construções substanciais.

Portanto, não é de se estranhar que a liderança do ranking de países que mais precisaram investir em infraestrutura foi assumida pelo Brasil na Copa de 2014 e agora será tomada pelo Catar, com um orçamento quase 15 vezes maior que o antigo recorde.

País Ano Valor 
Catar  2022 $220 bilhões 
Brasil 2014 $15 bilhões 
Rússia 2018 $11,6 bilhões 
Japão 2002 $7 bilhões 
Alemanha  2006 $4,3 bilhões 
África do Sul 2010 $3,6 bilhões 
França 1998 $2,3 bilhões 

Grande parte desses custos atribuídos à Copa do Mundo de 2022 fazem parte de um plano mais amplo do Catar para se consolidar como um país turístico, investindo em uma infraestrutura moderna e sofisticada com hotéis, transporte subterrâneo, estádios e aeroportos. Os custos associados aos estádios foram relatados na faixa de apenas US$ 6,5 bilhões a US$ 10 bilhões, o que significa menos de 10% do orçamento total.

Futebol no Catar

Apesar dos grandes investimentos em atividades futebolísticas ao longo da última década, o Catar não tem uma relação histórica com o esporte, que é superado em popularidade pelo críquete, que é a grande paixão de sua população de cerca de 2,8 milhões de habitantes. Porém, esses investimentos no esporte e, em especial, no futebol são uma das principais bases de um projeto para sustentar o desenvolvimento do país e proporcionar um alto padrão de vida para a população até 2030.

Um ano após ter a sua candidatura aceita para sediar a Copa do Mundo, em 2011, o Catar foi a sede da 15ª edição da Copa da Ásia, organizada pela Confederação Asiática de Futebol (AFC), e também da última edição dos Jogos Pan-Arábicos, encerrados por conta dos conflitos regionais e questões financeiras. Em 2021, o país sediou a Copa Árabe FIFA, 10ª edição do torneio de futebol de seleções do mundo árabe realizado sob a jurisdição da FIFA pela primeira vez, como prelúdio da Copa do Mundo de 2022.

Estádio Al Bayt durante a final da Copa Árabe da FIFA no Catar (Foto: Salim Matramkot)

Além disso, o Catar também marcou presença no futebol europeu ao longo da última década. Além dos investimentos diretos no clube francês Paris Saint-Germain (PSG) por

meio da Oryx Qatar Sports Investments, que totalizaram mais de US$ 9 bilhões desde 2011 e alçaram o clube à elite do futebol internacional, a Qatar Airways pagou US$ 163 milhões para patrocinar os uniformes do FC Barcelona em 2010.

Infraestrutura inovadora

O Catar investiu em uma enorme e moderna infraestrutura como parte do plano de desenvolvimento do país até 2030, que tem a Copa do Mundo como grande catalisador. Desde 2011, sete novos estádios foram construídos e um foi completamente reformado para receber os jogos do Mundial. Além das inúmeras obras de infraestrutura para promover habitações e meios de transporte para atender à demanda de turistas esperada.

Entre as construções está o estádio de Lusail, palco da grande decisão, com capacidade para 80 mil pessoas, que foi construído juntamente com uma nova cidade próxima a capital Doha – que também nasceu do zero, em meio ao deserto, como um dos grandes projetos do país. Local da abertura da Copa, o estádio Al Bayt, que tem um visual de tenda árabe, terá a sua parte superior convertida em um hotel 5 estrelas e shopping center após a realização do torneio.

Estádio Lusail (Foto: AFL Architects)

Além dos estádios 974 (previamente conhecido como Estádio Ras Abu Aboud), projeto sustentável construído inteiramente com contêineres – que poderá ser totalmente desconstruído e posteriormente vendido para uma nação em busca de infraestrutura para torneios esportivos –, e Ahmad Bin Ali, casa do clube Al Rayyan, que também foi feito com mais de 80% de materiais reciclados ou reutilizados. Além disso, todos os estádios terão sistema de resfriamento para minimizar o forte calor local.

Estádio 974 (Foto: Divulgação)

Acusações polêmicas

No entanto, após o sucesso da candidatura do Catar para sediar a Copa do Mundo de 2022 e o início das obras de infraestrutura, alegações de suborno e de abusos de direitos humanos começaram a surgir. Em 2011, o ex-vice-presidente da FIFA Jack Warner publicou e-mails afirmando que o Catar – especificamente o presidente da AFC, Mohamed Bin Hammam – havia “comprado” o apoio de dirigentes de futebol à candidatura para sediar a Copa.

As autoridades do Catar negaram todas as irregularidades. Em 2014, a FIFA, então dirigida por Sepp Blatter, inocentou o país das supostas irregularidades. Contudo, em 2015, Blatter renunciou ao cargo em meio a uma investigação criminal de autoridades suíças sobre as candidaturas à Copa do Mundo de 2018 e 2022.

Além disso, o governo do Catar foi acusado de violações de direitos humanos durante as obras para construir a infraestrutura necessária para sediar a Copa do Mundo. Em 2016, o grupo de direitos humanos Anistia Internacional acusou o país de usar trabalho forçado, alegando que muitos trabalhadores estavam vivendo em acomodações precárias, pagando altas taxas de recrutamento, com salários retidos e passaportes confiscados.

Desde 2017, o governo catariano começou a apresentar medidas para melhorar as condições de trabalho, como proteção para o calor excessivo, limite de horas de trabalho e melhores condições nos acampamentos de trabalhadores. O governo aprovou uma nova legislação destinada a beneficiar os trabalhadores migrantes e introduziu uma lei para os trabalhadores domésticos que estabeleceu um fundo de apoio e seguro aos trabalhadores.