Entra ano, sai ano e muitos torcedores e torcedoras se perguntam: “Será que o planejamento do meu time para o ano está correto?” Alguns já se adiantam e cravam, sem titubear, se vai dar certo ou não. Outros preferem aguardar a resposta no campo. O fato é que um planejamento bem-feito, com profissionais preparados, certamente ajuda, e muito, em um bom desempenho dentro de campo. 

É claro que não tem uma “receita de bolo” e que o futebol não é igual à matemática, onde só há uma resposta certa e, na maioria das vezes, um caminho correto a ser seguido. São muitas peças unidas para fazer a engrenagem funcionar. Além disso, no final das contas, só um time será campeão, alguns se classificarão para torneios importantes e outros serão rebaixados, porque as regras do jogo são essas.

Para um time começar a brigar por coisas grandes, muitas vezes é necessário um trabalho a longo prazo. Mas será que a torcida está disposta a esperar por isso? Acredito que, se a diretoria demonstrar credibilidade e transparência, a resposta é sim. Caso contrário, os torcedores dificilmente aceitariam ficar anos sem bons resultados para poder “arrumar a casa”. Afinal, o futebol também é movido por paixão e isso faz com que a tolerância a erros, muitas vezes, seja zero. A torcida não perdoa escolhas erradas, sejam contratações, vendas, demissões, entre outras, e todas essas escolhas englobam algo essencial no futebol brasileiro e mundial: planejamento. 

Sem dúvidas, as temporadas “ruins” nos clubes são mais comuns do que as boas, mas, quando um clube faz uma temporada boa, as devidas lições continuam sendo seguidas? Na maioria das vezes, a resposta é não. O resultado de uma temporada dá certo mais por acaso do que por planejamento e isso é um ponto importante a ser melhorado no futebol brasileiro como um todo. 

Mas por que essa longa introdução antes de abordar o desempenho pré e pós-demissão de técnicos no Brasil? A resposta é “simples”: quando há um planejamento bem-feito e confiança no trabalho, o número de demissões de técnicos de um clube tende a ser bem menor. O futebol é muito dinâmico e o resultado, na grande maioria das vezes, tem que ser imediato. Não há tempo para outra coisa a não ser a vitória e, por isso, há um número expressivo de demissões de treinadores.

A ciranda de técnicos no Brasil 

Em março deste ano, a CIES Football Observatory publicou um levantamento sobre a duração dos trabalhos dos técnicos em 90 ligas de futebol, de praticamente todos os países possíveis, que mostrou que o Campeonato Brasileiro é o 3º em que um técnico menos permanece no cargo. O campeonato nacional só perde para o Campeonato Boliviano de Futebol e para a Pro League, da Arábia Saudita. 

De acordo com o estudo, um treinador fica, em média, apenas 163 dias no comando de um clube do Brasileirão – o equivalente a pouco mais de 5 meses. Será que é um período de tempo ideal para se tirar conclusões? 

É evidente que existem casos e casos, com contextos diferentes, mas o imediatismo do futebol, principalmente o brasileiro, o calendário apertado e a falta de planejamento podem ser fatores cruciais para que o Brasileirão ocupe a 88ª posição em um ranking com 90 ligas.

“Círculo vicioso” de demissões 

No curto prazo, o maior culpado sempre será o treinador. Ele é o primeiro que está “na reta”. Não são os jogadores, nem a diretoria, sempre vai sobrar para o técnico. É óbvio que, muitas vezes, é inevitável e o treinador também tem a sua parcela de culpa, às vezes maior, às vezes menor, mas é uma engrenagem, ele não é o único. Porém, a demissão do técnico é a medida mais fácil de se propor para uma mudança ao longo de uma temporada. 

Após a demissão de um treinador, outro profissional assume o time, mas como é feita essa escolha? Quais são os perfis analisados? Os clubes sabem as características dos seus elencos e tentam contratar algum técnico com as mesmas características? Posso estar enganado, mas isso é raro no futebol brasileiro. Por outro lado, o técnico também precisa se adaptar ao elenco que tem, e, se alguma coisa não está dando certo, mostrar alternativas para mudar e não insistir no erro.

Em um mundo ideal, que é complicado na realidade do futebol por conta dos resultados, é necessário tempo para ter convicção de uma escolha. Com o calendário apertado do futebol brasileiro, o tempo é escasso, quase não há treinamento e descanso. Geralmente, é preciso escolher qual competição priorizar ou “aceitar” ser eliminado de uma delas para poder ter semanas inteiras de trabalho e, quem sabe, engrenar na temporada. 

No “círculo vicioso” de demissões de treinadores no Brasil, é “comum” um clube contratar um técnico para iniciar a temporada e querer resultados imediatos, mas não dar tempo para o trabalho evoluir, demiti-lo com 4 meses ou menos e contratar um técnico com perfil totalmente oposto. Se, por diversos motivos, esse técnico também não der certo, o clube aposta em um técnico/interino caseiro para tentar salvar o ano. 

Isso tudo é planejamento. Sem querer entrar no mérito ou demérito de algum clube, porque cada um tem seus motivos e suas visões, mas trocas em excesso mostram faltam de convicção, paciência e planejamento. Obviamente, pode ser o reconhecimento de um erro, mas, nesse caso, é necessário corrigir esse erro com uma escolha convicta, com total respaldo. 

Em março de 2022, o ex-jogador e agora técnico sub-20 do São Paulo, Alex, foi entrevistado no programa Grande Círculo do canal de TV fechada SporTV e comentou sobre isso: “O que, para mim, derruba treinador é a falta de convicção de quem contrata. Outra coisa que no Brasil acontece: o clube manda o cara embora no início do campeonato e o mesmo cara volta no final. O que mudou naquele período? Então, para mim, o que derruba treinador é o diretor que contrata e não sabe por que contratou. O técnico controla tudo, exceto o jogo, que é incontrolável. A decisão é do jogador.” 

A declaração de Alex só reforça que o que está por trás do desempenho em campo também é importantíssimo. É fundamental ter referências boas e um estudo adequado para acertar na hora de contratar um treinador, e isso reflete na convicção das diretorias de um modo geral. São decisões muito difíceis e falar é muito mais fácil, mas acredito que, com mais preparo e estudo, os erros podem ser reduzidos.

Retrospectiva dos resultados e demissões de técnicos na temporada 2021

O meio do futebol envolve uma série de inúmeros fatores, mas ao analisar friamente apenas os números de demissões de técnicos no Brasil, se torna nítido que trabalhos a longo prazo colhem mais frutos. Em uma análise dos números de demissões e os resultados obtidos pelos principais clubes brasileiros na temporada de 2021, nota-se que os clubes que mantiveram seus treinadores por mais tempo tiveram melhores resultados. Confira abaixo uma retrospectiva da última temporada:  

Clube Nº de técnicos Campeonato Regional Série A/Série B Copa do Brasil Libertadores Sul-Americana 
América-MG Vice-campeão 8º lugar Terceira Fase 
Atlético-GO Semifinal 9º lugar Oitavas Fase de Grupos 
Atlético-MG Campeão Campeão Campeão Semifinal 
Athletico-PR Semifinal 14º lugar Vice-campeão Campeão 
Avaí Campeão 4º lugar (Série B) Terceira Fase 
Bahia Semifinal 18º lugar (Rebaixado) Oitavas Fase de Grupos 
Botafogo Primeira Fase Campeão (Série B) Segunda Fase 
Ceará Vice-campeão 11º lugar Terceira Fase Fase de Grupos 
Chapecoense Vice-campeão 20º lugar (Rebaixado) Terceira Fase 
Corinthians Semifinal 5º lugar Terceira fase Fase de grupos 
Coritiba Primeira Fase 3º lugar (Série B) Terceira Fase 
Cruzeiro Semifinal 14º lugar (Série B) Terceira Fase 
Flamengo Campeão Vice-campeão Semifinal Vice-campeão 
Fluminense Vice-campeão 7º lugar Quartas Quartas 
Fortaleza Campeão 4º lugar Semifinal 
Goiás Quartas 2º lugar (Série B) Primeira Fase 
Grêmio Campeão 17º lugar (Rebaixado) Quartas Quartas 
Internacional Vice-campeão 12º lugar Terceira Fase Oitavas 
Palmeiras Vice-campeão 3º lugar Terceira Fase Campeão 
Red Bull Bragantino Quartas 6º lugar Terceira Fase Vice-campeão 
Santos Primeira Fase 10º lugar Quartas Fase de Grupos Quartas 
São Paulo Campeão 13º lugar Quartas Quartas 
Sport Vice-campeão 19º lugar (Rebaixado) Primeira Fase 
Vasco Primeira Fase 10º lugar (Série B) Oitavas 

Total de técnicos em 2021: 61 técnicos em 24 times (contando interinos) 
Total de trocas em 2021: 34 trocas em 24 times (contando interino) 
Times com mais trocas: Atlético-GO e Chapecoense – 4 trocas (5 técnicos no total – contando interino) 
Times com menos trocas: Atlético-MG, Palmeiras, Red Bull Bragantino, Coritiba e Avaí 0 troca (1 técnico no total) 

Tempo x Trabalho: uma análise do Palmeiras 

Para exemplificar, basta analisar o caso do Palmeiras de forma “fria”, porque são momentos, diretoria e jogadores diferentes durante o período analisado, que aponta alguns sinais sobre a importância do planejamento a longo prazo. 

Em meados de 2014, o alviverde demitiu o técnico Gilson Kleina e trouxe o argentino Ricardo Gareca, que havia feito um bom trabalho no Veléz Sarsfield, da Argentina. O treinador estrangeiro foi demitido com menos de 3 meses de trabalho. Os resultados apresentados, de fato, foram muito ruins. Foram apenas 13 jogos e 33% de aproveitamento, com 4 pontos somados em 27 disputados no Campeonato Brasileiro daquele ano. Na época, o treinador ainda pediu a contratação de diversos jogadores estrangeiros e foi atendido.

Será que os responsáveis por sua contratação não pensaram na questão da adaptação e outros fatores na época? Se ele ficasse, teria feito um grande trabalho a longo prazo no Palmeiras? Nunca saberemos, até porque o time poderia cair com ele sendo o comandante, já que o time não pontuava, estava na parte debaixo da tabela e terminou o campeonato na 16ª colocação. 

Pouco tempo depois da sua demissão, o técnico argentino foi contratado pela seleção peruana e está até hoje fazendo um grande trabalho. São equipes diferentes, “pressões” diferentes, mas é um fato que Gareca é um bom técnico, que teve muito pouco tempo para mostrar seu trabalho no Palmeiras. O ponto não é se a diretoria fez certo ou não de demiti-lo, mas que não houve um planejamento para um técnico qualificado, que poderia render mais no clube. 

Alguns anos depois, o Palmeiras demitiu Vanderlei Luxemburgo e contratou o técnico português Abel Ferreira, até então desconhecido pela grande maioria dos brasileiros. Em um cenário totalmente diferente de 2014, em todos os aspectos, o Palmeiras deu um voto de confiança e manteve Abel no cargo diante das primeiras turbulências. Mesmo vivendo um ótimo momento após grandes conquistas, o técnico já foi muito criticado pela imprensa por conta do seu estilo de jogo.  

Mais uma vez, as questões enfatizadas são o planejamento, a convicção e a confiança no trabalho. Em um momento ruim, as escolhas são complexas, mas, no longo prazo, a escolha por Abel se provou um grande acerto, como a do Gareca poderia ter sido também. Essa comparação entre Gareca e Abel é apenas um exemplo entre vários casos. Todos os anos, muitos clubes costumam repetir os mesmos erros e não ter a capacidade de identificar a origem do problema de desempenho.

Técnicos estrangeiros perderam o prestígio no Brasil? 

Aproveitando esse gancho de técnicos estrangeiros no futebol brasileiro, a temporada de 2022 já é bastante marcante neste sentido e pode apontar uma tendência para as próximas temporadas. Os jornalistas Rafael Oliveira e Thales Machado trouxeram pontos interessantes em um texto para o portal do jornal Extra. Até o momento, 10 técnicos estrangeiros estão ou estiveram no comando de um dos times da Série A. Um número recorde que ainda pode aumentar. 

Até mesmo os técnicos estrangeiros já entraram no círculo vicioso de demissão de treinadores do Brasil e o lugar de onde eles vêm não significa que terão respaldo no trabalho. São diversos os exemplos de técnicos estrangeiros que, nos últimos anos, ficaram pouco tempo no comando de clubes brasileiros: o argentino Diego Dabove, em 2021, permaneceu apenas 6 jogos no Bahia; o espanhol Miguel Ángel Ramirez, em 2021, durou apenas 3 meses no Internacional; o argentino Ariel Holan, em 2021, pediu demissão do Santos com apenas 2 meses de trabalho, entre outros. 

Por outro lado, também existem casos de treinadores estrangeiros que seguem nos seus clubes por bastante tempo como o próprio Abel Ferreira, que está há quase 2 anos no Palmeiras, o argentino Juan Pablo Vojvoda (Fortaleza) e o paraguaio Gustavo Morínigo (Coritiba), que estão, respectivamente, há 13 e 17 meses no comando dos seus clubes. Porém, esses três trabalhos são pontos fora da curva. De 2014 para cá, 30 trabalhos com estrangeiros no comando técnico começaram e terminaram nos principais clubes do Brasil e, somando todos, a média é de 5,2 meses para cada passagem. Ou seja, sem resultados imediatos o trabalho não se sustenta e voltamos à discussão do planejamento. 

O imediatismo do futebol brasileiro 

Em um artigo de opinião para o portal do Globo Esporte, publicado no dia 17 de junho, o jornalista Carlos Eduardo Sá comenta sobre o pouco tempo de trabalho do técnico Fernando Diniz no Fluminense. Sem entrar no mérito do trabalho atual de Diniz, a questão colocada por ele é: 20 sessões de treinos dão para tirar alguma conclusão de algum treinador? Seja qual for a nacionalidade e qual for o país que ele está trabalhando. 

Duas frases do texto escrito pelo jornalista vão ao encontro com os pontos defendidos neste artigo e servem para os torcedores de qualquer clube do Brasil: “Aqui no Brasil o fã de futebol não permite oscilação, não aceita a derrota como parte do processo, não aceita o erro como aprendizado. (…) O que é difícil de aceitar é o fato de que o torcedor Brasileiro não quer ter tempo para perder, não aceita o processo e só julga pelos resultados de momento, infelizmente.” 

Demitir o técnico é o melhor caminho?

Por que, quando o momento é desfavorável, a maioria acha que a solução é mudar o treinador? A responsabilidade pelo clube é apenas dele? Ele é o único responsável por toda organização ou desorganização? 

São apenas questionamentos a serem refletidos. Como dito antes, são decisões difíceis, a linha é tênue, mas hoje a impressão é que as decisões são tomadas sem muito embasamento por trás, sejam as escolhas boas ou as ruins, que determinam um futuro positivo ou negativo.

Reforço novamente que apenas um time ganha. Outros times farão bons campeonatos, outros não, mas não podemos normalizar a mediocridade, seja lá qual for o seu time. Não podemos achar normal inúmeras trocas de treinador no início de todo Campeonato Brasileiro. O futebol brasileiro urge por mudanças que tornem os clubes mais profissionais, mais preparados. 

Se erros primários forem evitados, a tendência é que todos saiam ganhando. Os técnicos têm sim a sua parcela de culpa em um trabalho que é interrompido no meio, mas eles não são os únicos e, muitas vezes, nem os principais culpados. São muitos conceitos a serem revistos e isso passa por planejamento, convicções e estudo. 

Às vezes, o melhor caminho será sim trocar o comando, mas em outros momentos não. Independente da decisão, isso vai refletir em como foi feito o planejamento da temporada e, se o técnico iniciar e terminar o ano no comando do time, pode ser um sinônimo de que o planejamento da temporada foi bem-feito.

Créditos: Estruturação e coordenação por Thiago Dias e Guilherme Calafate