Não é de hoje que o futebol deixou de ser apenas um esporte e se transformou em um mercado bilionário. Somente na temporada passada, a soma da receita líquida de todos os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro ultrapassou a marca dos 7 bilhões de reais. Porém, com tanto capital girando entre os clubes, algumas questões surgem para entender a dinâmica deste mercado: apenas títulos garantem uma boa administração ou é possível ter uma boa temporada sem levantar nenhum caneco? A saúde financeira dos clubes impacta no desempenho esportivo?  

Ao longo desse artigo, o desempenho financeiro dos times brasileiros será abordado mais a fundo, a partir de um indicador popular no mercado financeiro, intitulado de Return Of Investiment (ROI). Esse indicador será aplicado a fim de apontar os times que foram melhores administrados financeiramente e estipular as diferenças entre a classificação final do Brasileirão de 2021 e uma tabela baseada apenas na eficácia financeira dos clubes como critério de avaliação.  

O que é o Retorno de Investimento (ROI)? 

O ROI, do inglês “Return Of Investment” (Retorno de Investimento), é um indicador muito utilizado no mundo financeiro para medir a eficácia de um investimento. O cálculo do ROI é feito de uma maneira simples: (Valor arrecadado – Investimento) / Investimento. O resultado obtido deve ser multiplicado por 100 para calcular a porcentagem do ROI. De forma que, qualquer porcentagem acima de 0 significa uma administração positiva, enquanto uma porcentagem negativa indica uma péssima administração.  

Forma de aplicação 

A fim de aproximar o cálculo da realidade futebolística, foram necessárias algumas trocas nas variáveis: a receita líquida do clube na temporada é considerada como o valor arrecadado e as despesas do clube são o investimento. Todos os valores estão de acordo com os balanços oficiais divulgados pelos clubes, como obriga a Lei Pelé, referentes ao ano fiscal de 2021. 

Surpresas entre os clubes com melhor Retorno de Investimento 

Retorno de Investimento: saiba quais clubes brasileiros tiveram mais eficácia financeira em 2021

O clube goiano, que voltou à divisão de elite da principal competição nacional em 2021, obteve a sua melhor posição na história da competição, alcançando um expressivo 9° lugar. A posição no Campeonato Brasileiro, somada às campanhas na Copa do Brasil e na Copa Sul-Americana, renderam uma receita líquida recorde ao dragão. Mesmo conquistando apenas um título em 2021 – o Campeonato Goiano de 2020, adiado por conta da pandemia –, o Atlético Goianiense teve sua a melhor temporada financeiramente da histórica, com um Retorno de Investimento de 37,21% – o melhor entre os clubes da elite. 

Mais uma surpresa entre os clubes com os melhores resultados de Retorno de Investimento, o time da serra gaúcha, que, na tabela final no Brasileirão, ficou apenas uma posição acima da zona de rebaixamento, surpreendeu financeiramente e alcançou a terceira posição entre os melhores ROI’s da série A do Campeonato Brasileiro. Além do baixo custo da folha de pagamento da temporada, a venda do atacante Breno Lopes para o Palmeiras contribuiu para gerar uma receita líquida superior às despesas. 

Déficits nada surpreendentes 

Os salários impagáveis, as contratações totalmente fora de hora, a ausência em grandes competições e a seca de títulos vem afetando o time Paulista, que, não à toa, obteve o 3° pior ROI entre os 20 clubes da Série A. Além do maior déficit do campeonato, fechando o ano com uma dívida de mais de 106 milhões de reais, mesmo sendo Campeão Paulista de 2021. 

Retorno de Investimento: saiba quais clubes brasileiros tiveram mais eficácia financeira em 2021

Infelizmente, a temporada de 2021 foi um desastre para o time da Arena Condá. A Chapecoense vive um momento ruim em sua história, tanto financeiramente quanto esportivamente. O time amargurou a última posição na tabela do Brasileirão 2021 e o pior desempenho financeiro entre os times da elite nacional. Com uma despesa quase duas vezes maior do que a sua receita liquida, a Chapecoense obteve um resultado de -43,80% em seu indicativo de ROI. 

O equilíbrio financeiro faz a diferença 

Um dos melhores times da América do Sul (se não o melhor) evidenciou que o equilíbrio financeiro é importante também para o resultado esportivo. O Palmeiras, que terminou o ano de 2021 conquistando mais uma taça da Libertadores da América, apresenta em seus números o reflexo de uma gestão efetiva e saudável. Fechando o ano com uma receita acima dos 900 milhões de reais e com as despesas próximas de 820 milhões, o atual bicampeão da América encerrou a temporada apresentando um ótimo Retorno de Investimento, de 14,97% 

Retorno de Investimento: saiba quais clubes brasileiros tiveram mais eficácia financeira em 2021

Não é de hoje que o time carioca está entre os mais organizados financeiramente do Brasil. Além de títulos expressivos, como a Libertadores de 2019 e os Campeonatos Brasileiros de 2019 e 2020, o time também se destaca nas finanças. O Flamengo obteve uma receita líquida de mais de 1 bilhão de reais no ano de 2021, mesmo conquistando apenas títulos de menor expressão, como a Super Copa do Brasil e o Campeonato Carioca. O time também tem o maior valor de despesas, acima de 850 milhões de reais. Evidenciando a importância do equilíbrio nas finanças, o Flamengo fechou o ano de 2021 com um Retorno de Investimento excelente, de 20,69%. 

Nem sempre o equilíbrio financeiro pode salvar a temporada 

Financeiramente, o ano do Grêmio não foi ruim. O time gaúcho conseguiu manter equilíbrio em suas receitas, de acordo com o balanço divulgado, e alcançou um ROI de 2,70%, ou seja, praticamente empatou a sua receita líquida com as despesas. Contudo, se, financeiramente, a temporada não foi um desastre completo, esportivamente, o time amargou seu terceiro rebaixamento para a Série B (o time também caiu em 1991 e 2004). Agora, fica a dúvida se o fechamento do ano fiscal de 2022 também será positivo, tendo em vista a queda brusca na receita obtida em premiações e direitos de transmissão na segunda divisão.  

O ano do Galo 

2021 foi o ano do Galo, que foi campeão do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil e teve uma das melhores temporadas da sua história. Nomes importantes chegaram ao elenco, como Hulk, Arana, Nacho Fernandez, Diego Costa e Eduardo Vargas, elevando as despesas para aproximadamente 700 milhões de reais. Porém, todo esse investimento foi convertido em dois títulos nacionais e uma receita liquida de 783 milhões de reais, resultando em um Retorno de Investimento de 14,95%. 

E a SAF?  

Quando o assunto é austeridade financeira e investimento dentro do futebol, muitos apontam as famosas SAFs como solução para tudo, mas será que esse é mesmo o caminho da saúde financeira? Uma das SAFs brasileiras mais emblemáticas, o Red Bull Bragantino apresentou um Retorno de Investimento de 7,81% na temporada de 2021, sendo o décimo melhor entre os clubes do Brasileirão. Esportivamente, apesar de contratações caras, como Praxedes, Helinho e Hurtado, o time não conquistou nenhum título, ficando apenas com o vice-campeonato da Copa Sul-Americana. 

Em uma comparação entre as SAFs que disputaram o Brasileirão 2021, a SAF de Bragança Paulista se saiu muito melhor do que a Mato-Grossense. Apesar da rápida ascensão do time cuiabano à elite nacional, o clube ainda está se organizando financeiramente. Após o Retorno de Investimento negativo, de -6,63%, na temporada de 2021, o time pode contar com a classificação para a Copa Sul-Americana de 2022 para melhorar a sua saúde financeira. 

Tabela do Brasileirão baseada no Retorno de Investimento 

Confira abaixo a tabela completa de como seria a classificação final do Brasileirão se o Retorno de Investimento fosse o quesito principal. A tabela também apresenta os valores de receita líquida, despesas e o superávit/déficit de cada clube que disputou o Campeonato Brasileiro em 2021. O que resultou em um G4 completamente diferente e surpreendente e um Z4 que faz jus às campanhas dos times em 2021.  

Retorno de Investimento: saiba quais clubes brasileiros tiveram mais eficácia financeira em 2021

Por Flávio Souza e Matheus Cardoso

Créditos: Estruturação e coordenação por Thiago Dias e Guilherme Calafate