Em março de 2020, a OMS (Organização Mundial da Saúde) oficializou a pandemia de Covid-19, causada pelo novo Coronavirus (SARS-CoV-2). E desde então, o mundo presencia uma das piores crises sanitárias de sua história. O impacto foi grande em diversos segmentos em todos países, sobretudo no lado econômico. E uma das áreas que sofreu muito com o momento de crise foi a esportiva, com a paralização de competições e, mesmo após o retorno, com a ausência de público nas arenas por um bom tempo. E justamente por se tratar do esporte mais popular no país, preparamos aqui um material especial sobre o futebol na pandemia.

Para este artigo, conversamos com o Vice-Presidente de Finanças do Flamengo, Rodrigo Tostes, para entender os impactos da pandemia sobre o clube, e até mesmo com um vendedor ambulante acostumado a trabalhar nas imediações do Maracanã.

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O setor de serviços

Aqui no Brasil, de modo geral, houve uma considerável retração no PIB, principalmente em segmentos como o de serviços, tendo em vista que eventos e outros tipos de ocorrências presenciais precisaram ser paralisadas.

O setor de serviços apresentou uma das maiores perdas da economia brasileira, atingindo uma retração de 7,8% em volume, no ano de 2020, sendo a queda mais intensa da série de indicadores acumulados no ano, iniciada em 2012 (IBGE – PMS Dezembro/2020).

Fonte: IBGE – Contas Nacionais Trimestrais

Conforme demonstrado nos gráficos acima, é possível perceber uma drástica queda, tanto no volume de prestação de serviços, quanto na variação do PIB com o início da pandemia.

Atrelado a isto, é importante destacarmos também o impacto que isso causou na geração de empregos, o que impacta diretamente no poder de compra das pessoas e consequentemente na economia do país. Como demonstrado no gráfico abaixo, é possível perceber que a partir do início da pandemia, o índice de desemprego no país tem estado acima de 12%.

Fonte: IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento

Contudo, ao falarmos de serviços, é relevante entrarmos em um assunto de grande foco no país, que é o futebol.

A indústria do futebol brasileiro

É de conhecimento popular que o Brasil é o país do futebol. Assistir uma partida no estádio, no bar, ou em casa, é um evento social. O futebol brasileiro movimenta cerca de R$ 50 bilhões/ano, e o impacto na economia é de quase 1% do PIB nacional (CBF, 2019).

Os impactos sobre o futebol na pandemia

O futebol na pandemia, especialmente no ano de 2020, quando tudo começou, foi marcado pelo cancelamento de partidas, paralisação de campeonatos e pela ausência total de torcedores nos estádios.

Em março daquele ano, os primeiros campeonatos começaram a ser paralisados, tais como a Copa do Brasil e Estaduais, devido ao aumento no número de casos de Covid-19 ao redor do país.

Após cerca de três meses de paralisação total do futebol, o movimento de retorno começou a tomar forças, através do “Plano São Paulo”, protocolo criado que liberava o retorno das equipes aos treinamentos, por exemplo, ainda sem a previsão de uma volta definitiva das partidas oficiais. Em paralelo, outras Federações, como a Carioca, eram pressionadas por clubes, liderados por Flamengo e Vasco, pelo retorno imediato das partidas, culminando em discussões de bastidores entre os demais. Essa pressão acabou surtindo efeito e, no dia 18 de junho, foi realizada a primeira partida desse retorno, um jogo entre Flamengo e Bangu.

Seguindo este fluxo, no mês de julho, boa parte dos Estaduais já haviam retornado, como foi o caso do Paulista e Mineiro, mas ainda com a ausência de público e enfrentando muitas críticas da população e especialistas da área da saúde. Em março de 2021, com o aumento do número de casos, algumas Federações decidiram decretar a paralisação das partidas novamente, apesar do posicionamento de Rogério Caboclo, presidente da CBF na época, de que as competições Nacionais continuariam ocorrendo.

Quanto ao movimento de retorno do público aos estádios, este só foi tomando forma de fato em agosto de 2021, com a divulgação do protocolo para liberação de torcedores nas partidas, elaborado pela CBF, o que foi feito de forma gradativa ao longo dos últimos meses.

Contudo, todo este período de paralisação, indefinições e ausência de público acabou causando redução significativa da receita dos clubes, dos fornecedores, de toda cadeia produtiva, e de milhares de empregos.

Futebol na pandemia: entrevista com vendedor ambulante do Maracanã

Com o intuito de entendermos melhor esse cenário, conversamos com o Sr. José Maria, 52, que trabalha como ambulante no entorno do estádio Maracanã:

Sport Insider: Logo no início da pandemia, ocorreram os cancelamentos das partidas de futebol. Você achou que a pandemia duraria tanto tempo, como isso afetou a sua renda, e da sua família?

JM: Eu achei que seriam só uns dias, acho que todo mundo teve esse pensamento. Ficou difícil quando acabaram os jogos, mesmos em outros pontos, foi difícil, porque não se via ninguém na rua. Minha esposa faz salgado pra fora, comecei a ajudar ela, mas não era muito. Foi muito difícil, e ainda está, até hoje, as pessoas não compram como antes.

Sport Insider: A vacinação avançou em todo o país, e tivemos o retorno do público nos jogos, você se sente seguro em voltar a trabalhar na rua?

JM: Na verdade eu nunca parei né, minha esposa pegou (Covid), e eu não, mas já estamos vacinados. Não temos muito o que fazer, temos que levar comida pra casa.

Sport Insider: Já estamos no final do ano, o que espera para o ano de 2022?

JM: Tenho esperança de que as coisas vão voltar ao normal, e venham pra cá comprar comigo!

Flamengo: um ponto fora da curva

No entanto, indo na contramão da crise financeira gerada com a pandemia do Covid-19, o Flamengo foi uma exceção à regra da maioria de clubes e empresas brasileiras. Com uma gestão de caixa firme, tornou-se uma inspiração para crises futuras, e por isso, conversamos com Rodrigo Tostes, Vice-Presidente de Finanças do Flamengo, para entender um pouco mais da percepção do clube sobre os impactos que pandemia trouxe ao esporte:

Futebol na pandemia: entrevista com Rodrigo Tostes

Sport Insider: Entendemos que o Flamengo teve uma queda de cerca de 30% no faturamento. Bilheteria e sócio-torcedor foram as fontes de receita que mais foram impactadas. Como arcaram com essa redução brusca, além da campanha de redução de despesas?

Rodrigo Tostes: Desde 2012, foi feito um trabalho grande de investimento em atletas, de um ponto de vista de planejamento estratégico. O Flamengo em 2019 teve um ano mágico, e tínhamos um grande potencial de monetização face às conquistas que foram feitas, e isso acabou não acontecendo por causa da pandemia. O primeiro fato que precisa ser entendido, é que os profissionais que estão à frente do Flamengo têm grande experiência em projetos e na área de gestão de crise de companhias, então lidar com a pandemia foi super difícil, mas não era algo que estava fora do nosso espectro de trabalho. A primeira ação foi a criação de um comitê de crise, a fim de manter o nível de investimento, dentro do possível, para que, efetivamente, a gente não jogasse tudo que conquistamos nos últimos 7 anos fora. Então, fixar a linha de pessoal, foi uma decisão importante.

Sport Insider: O Flamengo foi pioneiro na volta do público aos estádios, quais foram os impactos em relação à essa questão?

Rodrigo Tostes: O futebol é outro esporte, outro espetáculo, sem o público. Ter isso de forma completa é muito importante para muita gente. Poder estar nos estádios, poder levar seus filhos, poder estar com sua família. Esse é o lazer do final de semana de muita gente. Então, a gente entende o quão importante isso é para as pessoas. E decidimos lutar pelo que era justo, uma vez que já havia uma série de liberações, já se sabia de algumas condições, e a vacinação estava avançando.

Sport Insider: Qual planejamento pós-pandemia? Qual a expectativa de retomada ao nível pré-pandemia?

Rodrigo Tostes: O Flamengo tem que buscar receita recorrente. Temos que tentar reduzir o máximo possível a dependência da venda de jogadores, por exemplo. A gente sabe que isso é fundamental, mas a gente tem que tentar depender menos disso e focar na renda recorrente.

Sport Insider: Muito se fala sobre uma possível onda de desejo de consumo reprimido, diante disso, quais são as expectativas do clube para os próximos meses?

Rodrigo Tostes: A gente espera um faturamento de receita bruta para esse ano (2021) de mais de R$ 1 bi.

Impacto das finanças dentro das quatro linhas

A conversa ilustra como o modelo de gestão profissional do clube surtiu efeito no impacto causado pela pandemia, o que não necessariamente ocorreu nos demais times do país. Ao abordarmos este ponto, podemos fazer um paralelo com a opinião exposta por Rodrigo Capelo, jornalista especializado em negócios do esporte, repórter e comentarista dos canais do Grupo Globo.

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Ao analisar os impactos causados no futebol na pandemia aqui no Brasil, pode-se concluir que a pandemia agravou crises que já existiam no futebol brasileiro, por ter cortado o fluxo de caixa de diversos clubes cujas finanças já estavam delicadas. Isso gera, inclusive, um alerta para o fato de que a pandemia pode acentuar ainda mais a disparidade técnica entre os clubes mais bem administrados, como no caso do Flamengo e Palmeiras, em relação aos que já apresentavam uma situação financeira mais instável, como no caso de Internacional, Vasco, Botafogo, Fluminense, Corinthians e São Paulo, dentre outros.

Levamos para os próximos meses e anos o questionamento: a aplicação de estratégias de crise mais eficazes, através de uma gestão estratégica organizada, se traduz, de fato, numa disparidade competitiva? Será que já estamos vivendo isso?

Créditos: Estruturação e coordenação por Bruno A. Matos