O projeto europeu para o futebol feminino já começou a dar resultados – como na final da Eurocopa Feminina 2022, que registrou uma audiência histórica, realizada no último domingo (31) –, enquanto, na América, essa ainda é uma realidade distante. As diferenças entre os investimentos e a audiência em ambos os continentes refletem diretamente na prática do futebol feminino em cada um deles.

Eurocopa Feminina 2022

Os esportes femininos vêm ganhando extremo destaque com os aumentos no investimento e no engajamento do público durante as últimas décadas. Como resultado, ligas de esportes femininos vêm conquistando cada vez mais o público, como, por exemplo, a Eurocopa Feminina de 2022.

Realizada no dia 31 de julho, a final da competição entre as seleções da Inglaterra e da Alemanha bateu recordes históricos de público, contando com mais de 87 mil fãs assistindo ao jogo no estádio, em Wembley – um novo recorde de público da história da Eurocopa, considerando as modalidades masculina e feminina. Os maiores públicos registrados anteriormente eram de 68 mil pessoas, na abertura do campeonato, também em 2022 e, previamente, 43 mil, na temporada de 2013.

Jogadoras da Inglaterra comemoram o título com os torcedores presentes no estádio (Foto: Lindsey Parnaby / AFP)

A grande audiência na final foi reflexo de uma temporada muito acompanhada pelo público, em que o público presencial foi de mais de 500 mil pessoas, no acumulado da temporada. Como comparação, o recorde anterior havia sido em 2017, com 243 mil espectadores presenciais no total.

A Eurocopa Feminina de 2022 também foi recorde em audiência na TV: foram mais de 17 milhões de pessoas assistindo ao evento – sendo 1 milhão apenas pela BBC One, uma das principais emissoras britânicas. Além disso, a audiência em plataformas de streaming também foi destaque, totalizando quase 6 milhões de espectadores.

É importante ressaltar que o prêmio monetário da competição foi mais do que dobrado em relação à temporada passada. O prêmio total de 16 milhões de euros foi distribuído da seguinte forma:

  • €9,6 mi foram igualmente divididos entre as 16 seleções participantes (€600 mil para cada)
  • €100 mil foram adicionados ao prêmio dos vencedores da fase de grupos
  • €205 mil foram adicionados ao prêmio daqueles que se classificaram para as quartas
  • €320 mil foram adicionados ao prêmio daqueles que se classificaram para as semis
  • €440 mil foram adicionados ao prêmio do vice-campeão
  • €660 mil foram adicionados ao prêmio das campeãs da Eurocopa

Apesar da vitória em ter o valor da premiação dobrado, essa quantia ainda é 23 vezes menor do que a distribuída no futebol masculino. Mesmo assim, o avanço nos investimentos é consequência do aumento do público, que, por sua vez, também é impulsionado pelos maiores investimentos e, por isso, é tão importante para a crescente dos esportes femininos no mundo.

Copa América Feminina 2022

Na América, o final de semana também recebeu jogos de final de uma competição continental feminina. A final da Copa América, disputada entre Brasil e Colômbia, foi realizada no dia 30 de julho e consagrou a Seleção Brasileira como campeã pela oitava vez no campeonato. A seleção teve 100% de aproveitamento no campeonato.

Jogadoras da Seleção Brasileira levantam a taça da Copa América (Foto: RAUL ARBOLEDA/GettyImages)

O jogo da final chegou a bater 4,8 pontos de audiência – aproximadamente 3,48 milhões de telespectadores – e foi o programa mais visto do SBT (emissora detentora dos direitos de transmissão dos jogos) no dia. A partida decisiva contou com 25 mil espectadores presenciais. Apesar dos números de audiência serem consideravelmente menores em relação à Eurocopa, trata-se de um resultado que reforça a crescente do futebol feminino na América.

A edição de 2022 contou com algumas novidades, sendo uma delas a premiação: pela primeira vez nas nove edições da Copa América, o prêmio foi distribuído em dinheiro. Em conformidade com a menor audiência em relação à Eurocopa, o prêmio monetário também é menor, com a seleção ganhadora recebendo apenas U$ 1,5mi. Além disso, o campeonato também garantiu cinco vagas para próximas competições, sendo três vagas para a Copa do Mundo Feminina de 2023 e duas para as Olimpíadas de Paris em 2024.

Outras novidades foram a forma do troféu, uma vez que o time ganhador – no caso, o Brasil – recebeu a taça em forma de NFT, e o fato de o campeonato ter contado com seu primeiro grande patrocinador, a empresa norte-americana Mastercard, que está por trás de todas essas novidades.

Análise geral do futebol feminino: Eurocopa e CONMEBOL

A última edição da Eurocopa, chamada de “Euro das Euros”, demonstrou o crescimento exponencial do futebol feminino na Europa. Públicos recordes, forte engajamento e diversas gerações envolvidas com o evento mostram que a Europa conseguiu cativar um público para as mulheres. Essa conquista tem origem nos grandes investimentos feitos pelas federações, mesmo sem esperar um resultado imediato. Para criar um modelo de sucesso para o futebol feminino, a União das Associações Europeias de Futebol (UEFA) fez as meninas terem categorias de base, campeonatos locais e uma grande estrutura de treinamento, investindo pesado e dando aval para as federações fazerem o mesmo.

Após ter uma base estruturada, a instituição começou a divulgação e a produção de conteúdo para os fãs, com documentários, campanhas de marketing, aproximação com os jogos masculinos e muito trabalho nas redes sociais. É notável que a UEFA trabalhou muito bem o futebol feminino como produto, que não estava sendo bem visto no mercado, e o processo que começou em 1984, com a primeira Euro Feminina (antes de existir sequer a Copa do Mundo Feminina), está começando a gerar frutos agora. A federação europeia, inclusive, foi elogiada por Ronaldo Nazário, que comentou sobre o grande trabalho: “Chama atenção o nível de organização da UEFA, que tratou a competição como um produto com grande potencial e, naturalmente, vemos um público forte marcando presença, além de muitas marcas investindo”, afirmou.

Já a Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL) ainda está muito atrás nesse processo, registrando públicos e engajamento bem menores. A entidade não tem um projeto a longo prazo definido de divulgação do futebol feminino. Em comparação, o objetivo da UEFA era trabalhar o produto para os clubes locais verem uma oportunidade de crescimento, diferentemente da CONMEBOL, que, em 2016, obrigou os grandes clubes a terem times profissionais para as mulheres, para poder jogar competições internacionais organizadas pela instituição. A partir desta obrigação, se torna evidente que os times promoveram elencos femininos apenas para não serem punidos e, por isso, é raro que o futebol feminino tenha grandes audiências e públicos no continente. É evidente que o cenário já está melhor do que antes, porém ainda está longe do ideal e bem distante do futebol europeu.

Por Gabriel Katz, Giovana Guerreiro e Rafael Caldas