Com mais um show de Lebron James, os Los Angeles Lakers  fecharam a série contra Miami em 4×2 e conquistaram o 17⁰ título da franquia, após 10 anos de espera. Um momento histórico não apenas pelo contexto esportivo, mas tudo o que envolve o título nessa temporada absolutamente atípica.

A conquista veio para coroar a dupla Lebron James e Antony Davis, que comandaram a equipe durante toda a temporada, além de ter sido a melhor maneira de homenagear o grande ídolo e ex-jogador do Lakers, Kobe Bryant, que faleceu em um acidente de helicóptero no início do ano. 

Full schedule: NBA restart scrimmages | NBA.com
Fonte: Nba.com 

Com o slogan “Whole New Game” (“Jogo totalmente novo”, em tradução livre) a NBA mostrou uma capacidade incrível de se adaptar ao cenário de pandemia que vivemos nesse 2020, ao finalizar essa temporada de uma maneira única. Um verdadeiro case para o mundo do esporte e entretenimento. 

NBA bubble, explained: A complete guide to the rules, teams, schedule &  more for Orlando games | Sporting News
Fonte: sportingnews.com 

A bolha da NBA 

A pandemia do coronavírus paralisou as competições esportivas mundo afora. Ninguém sabia o que aconteceria. A incerteza, em um ecossistema altamente dependente de acordos de patrocínio e de calendários minuciosamente construídos, é mortal. Enquanto campeonatos de futebol tentavam voltar aos poucos na Europa, a NBA seguiu um caminho diferente. 

Para terminar de temporada de forma segura, nasceu uma solução até então inimaginável: uma “bolha” dentro do complexo do Walt Disney World Resort. Três hotéis (Grand Destino Tower, Grand Floridian e Yatch Club) foram destacados para hospedar as 22 equipes que disputaram a parte final da temporada regular e os playoffs.  

Foram disponibilizados três ginásios (Arena, Field House e Athletic Center) para as disputas dos jogos, além de 7 quadras para treinos. Cada equipe foi autorizada a levar 17 atletas para dentro da bolha. Além dessa parte profissional à disposição, os atletas também tiveram acesso a algumas comodidades, como lounges com videogame e TV, exibição de filmes, campos de golfe, sinuca, espaço para yoga e serviços de beleza mediante agendamento. 

Dentro do “mundo de fantasia” da Disney, a NBA reinventou o jogo e criou um simulacro da vida real que faria inveja ao próprio Walt Disney. 

O Sport Insider conversou sobre a temporada com o Marcelinho Machado, ex-jogador da seleção brasileira de basquete e atual comentarista do SportTv.  Para ele, a NBA mostrou que é uma liga de excelência e a melhor liga de esportes do mundo.  

“Segurança, organização, estrutura e um nível altíssimo de competitividade. São mais de 90 dias desde a retomada da temporada, num ambiente seguro, controlado, com planejamento e eficiência incríveis. Ao longo das semanas, dos meses, o que se viu foi um campeonato fortíssimo, com as equipes bem preparadas, jogando num ritmo muito forte, partidas de muita qualidade e emocionantes.”  – Marcelinho Machado 

Gran Destino Tower will be the main hub for the NBA players
“Imagem de um dos hotéis e quadras que foram utilizados” – Fonte: wdwmagic.com 
HP Field House will serve as the main game court

Protocolo  

Uma das principais preocupações da bolha era em relação a segurança dos atletas e funcionários que trabalharam no projeto, para isso foi criado um protocolo rigoroso, para além dos cuidados que todos já estamos experimentando, como a utilização de máscaras e distanciamento social. Os atletas e membros da equipe eram testados diariamente para Covid-19 e monitorados para possíveis sintomas, o que incluía até mesmo a utilização de um “anel inteligente” que media a temperatura e frequência cardíaca em tempo real. 

Outro fator de segurança importante: os atletas só eram autorizados a deixar o complexo em casos de exceção (como no nascimento de um filho ou falecimento de algum familiar). Qualquer pessoa que deixasse as instalações da Disney era obrigada a cumprir uma quarentena de 10 a 14 dias isolados, para só então ser liberada a voltar às atividades. 

Á partir dos playoffs, cada jogador teve direito a receber quatro convidados. Eles tiveram que passar por uma quarentena de sete dias dentro da Bolha até serem liberados a conviver normalmente.  

How the NBA's smart rings are supposed to detect coronavirus - SBNation.com
       “Anel inteligente” detecta sintomas de coronavírus – fonte: sbnation.com 

Impacto técnico 

Há também a questão técnica. A temporada atípica deveria influenciar o mínimo possível no desempenho esportivo. Na opinião de Marcelinho, o sucesso da bolha também se mostrou dentro de quadra. Para ele, as surpresas como a eliminação precoce do Clippers e a chegada do Miami Heat na final não podem ser justificadas pela Bolha, com uma suposta influência na parte técnica e psicológica no desempenho das equipes. Ele acredita que Lakers e Miami chegaram à final porque foram melhores em quadra, jogaram um basquete sólido e eficiente. Enfatiza que essas surpresas são comuns no basquete e relembra que no ano passado o Milwaukee foi a melhor campanha do Leste e esse ano não foi à final. 

O ex-atleta enfatiza que talvez os primeiros jogos, especialmente antes do início dos Playoffs, tenham sido um período mais difícil, pela adaptação a uma realidade diferente, uma rotina cheia de limites e preocupações. Depois, aos poucos, o que se viu, até nas postagens, no dia a dia dos atletas, foi um outro humor, um tom diferente. Estavam todos mais leves e preparados para jogar seu melhor basquete. 

Engajamento e Relacionamento 

A NBA decidiu não fazer apenas um campeonato “apesar da quarentena”. Decidiu embarcar no “novo normal” e criar uma experiência única. 

Durante os meses de quarentena, a liga usou as mídias sociais e as plataformas de streaming para continuar e até fortalecer o relacionamento de jogadores e a própria NBA com seus consumidores. Os atletas aproveitaram a oportunidade para se promover por meio de torneios de videogame e lives no Instagram. E, para suprir o período sem jogos com conteúdo relevante, a NBA também antecipou o lançamento de um documentário de Michael Jordan e disponibilizou reprise de jogos clássicos todas as noites. Tudo para continuar a envolver os fãs durante esse tempo. 

Com o retorno dos jogos na Bolha, a NBA precisou se reinventar na forma de interação com o público para manter o engajamento nas partidas mesmo com arquibancadas vazias. Como esperado, a liga abusou do uso da tecnologia para transportar seus fiéis torcedores para dentro das quadras. Convidou fãs para assistirem os jogos por meio de transmissões ao vivo, mostrando suas reações e emoções dentro das arenas Disney.  

Para a viabilização, a liga contou a Microsoft na tecnologia e fez parceria com a Michelob Ultra para promover e impulsionar a demanda. O que se pôde ver foi a oportunidade de torcedores interagirem e serem vistos na arena.  

A plataforma era como uma reunião digital comum, a única diferença era a emoção de fazer parte de um momento único na história do esporte e apoiar os seus times e atletas do coração. 

Nas partidas, havia placas de vídeo com os rostos dos torcedores que ocupavam 32 lugares, dando preferência ao time da casa. Então, a cada lance livre os torcedores vibravam e traziam o calor da emoção para dentro das arenas. Não são apenas os fanáticos por basquete participaram das partidas, mas também alguns famosos como Lil Wayne e Spike Lee. 

Os esforços criativos da NBA não pararam com os fãs virtuais. As apresentações dos jogadores foram pré-gravadas pelos locutores regulares do time e o vídeo de campanha foi o mesmo usado durante toda a temporada. Alguns times também trouxerem o ruído da multidão de suas torcidas para dentro de quadra.  

Engajamento social 

Outro fato que não pode deixar de ser mencionado, foi o posicionamento dos jogadores e da liga a favor da campanha  Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), desde mensagens nos uniformes, nos tênis e nas quadras, entrevistas e posicionamentos em redes sociais, até o momento inédito onde os atletas do Milwaulkee Bucks se recusaram a entrar em quadra para enfrentar o Orlando Magic após um homem negro de 29 anos receber sete tiros da polícia em Wisconsin. O movimento foi seguido pelas outras equipes da liga e gerou uma paralisação de 3 dias dos jogos, apoiada pela liga, o que mostra a força e a seriedade com que os atletas estão levando a causa. 

NBA players protest racial injustice as league returns to action
Atletas protestam se ajoelhando durante o hino nacional americano – Fonte: nbcnews.com 

Patrocínios

A NBA tinha concluído 78% de sua temporada quando precisou suspender os jogos, em março, por causa da pandemia do coronavírus. A pausa forçada foi um enorme desafio para a liga, que teve bilhões de dólares em contratos de TV, patrocínio e vendas de ingressos prejudicados. Segundo cálculos dos especialistas, os patrocinadores perderam aproximadamente 20% do valor de patrocínio. Isso tudo sem contabilizar os playoffs, a parte mais lucrativa das temporadas.  

O plano da Bolha na Disney ajudou a NBA a recuperar parte desse dinheiro e escapar de um grande prejuízo. A liga reescreveu seu manual para buscar novos tipos de ativação dos patrocinadores, trabalhando em novas oportunidades virtuais para oferecer exposição.  

A visibilidade de marca proporcionada pela NBA é uma das maiores no mercado esportivo. A Nike e a State Farm, principais patrocinadores da liga, ganharam um grande valor de marca com a liga. Mas os patrocinadores ficaram 5 meses sem partidas para se vincular. Portanto, o retorno foi um momento crítico e de muito cuidado, para compensar a exposição perdida e cumprir as obrigações contratuais. Foi preciso pensar estrategicamente para que todos os patrocinadores fossem ativados de alguma forma. 

O comissário da NBA, Adam Silver, disse que a liga buscou outras oportunidades de geração de receita, como colocar imagens comerciais no chão para aumentar o valor para patrocinadores e anunciantes. Como parte das ações vistas, a liga criou uma sinalização digital para jogos no complexo Disney, que destaca os parceiros de direitos de nomes de equipe. Além disso, teve outra sinalização digital e na arena ao redor da quadra como inventário adicional para patrocinadores. 

Alguns patrocinadores utilizaram estratégias de engajamento com os fãs, unindo a exposição ao relacionamento. A Michelob Ultra, cerveja oficial da NBA, apresentou a Michelob Ultra Courtside, que permitiu que os torcedores aparecessem virtualmente dentro da arena durante os jogos transmitidos pela televisão nacional. Já o Gatorade, patrocinador mais antigo da liga, criou estações de hidratação individualizada para os jogadores em cada uma das três quadras do complexo.  

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Celtics' Enes Kanter Talks NBA Bubble, GOAT, Russell Westbrook in B/R AMA |  Bleacher Report | Latest News, Videos and Highlights

Também foram vistas iniciativas visando a saúde e bem-estar dos atletas pensando em como melhorar a experiência do atleta na Bolha. Parceiros forneceram máscaras personalizadas a todos os jogadores e ao pessoal no local, kits de meditação e desinfetantes UV para celulares. 

A Nike se uniu aos jogadores no apoio a protestos contra o racismo. A marca lançou uma campanha multiesportiva com grandes nomes e em paralelo garantiu camisetas personalizadas da equipe Nike com uma mensagem de justiça social de sua escolha no lugar do sobrenome. Os jogadores também usaram camisetas de aquecimento da Nike exibindo “Black Lives Matter” enquanto a liga usa o reinício para destacar questões de justiça social. 

Sportbuzz · Volta da NBA é marcada por protestos do movimento 'Black Lives  Matter'

O presente e o futuro 

Conversamos também com o Marcelinho sobre como ele enxerga o futuro da NBA para 2021, se acredita que a Bolha deixará algum legado em relação aos eventos, patrocínios e postura da liga. Ele pensa que ainda é muito cedo para dizer, pois ainda não há nem mesmo datas definidas para a próxima temporada. O ex-atleta concorda que a NBA está esperando a vacina para tomar posicionamos. 

“Ter jogos sem público representa uma queda de receita muito grande para as franquias. Com a vacina, com todos seguros, saudáveis, sem a preocupação de contágio, de uma nova onda de COVID-19, acho que aos poucos voltaremos à vida normal. Assim todos esperamos.” Marcelinho Machado

Foram 22 equipes, 3 hotéis, 3 ginásios, 170 jogos, e uma capacidade incrível de se reinventar. Sem dúvida alguma a bolha da NBA em Orlando entrou para história do esporte mundial.  

Com uma aula de organização, transformaram um campeonato que chegou a correr o risco de ser encerrado antes do tempo em um verdadeiro show de emoções. Com uma preparação perfeita por parte da liga para que todos os envolvidos tivessem tranquilidade para trabalhar na mais perfeita segurança e pudessem pensar somente no espetáculo, o mundo inteiro pôde acompanhar jogos de altíssimo nível, que conseguiram envolver e entreter os fãs mesmo à distância. 

Mais uma vez a NBA mostrou porque é uma das ligas mais valiosas do mundo. O trabalho feito com seriedade, aliado ao compromisso e a confiança que todos os envolvidos no processo — patrocinadores, jogadores e donos de franquias — depositaram na liga, fizeram com que tudo funcionasse perfeitamente. 

A temporada que muitos queriam esquecer acabou fechada com chave de ouro e será sempre lembrada por todos. Uma verdadeira bola dentro, ou melhor, uma autêntica cesta de 3 pontos.