Angela Côrtes é chamada de “anjo da guarda” por um dos maiores nomes do esporte brasileiro em todos os tempos: o ex-lutador de MMA Rodrigo Minotauro. E o apelido não é por acaso. Ou tampouco tem a ver com seu nome. A fisioterapeuta se tornou uma referência no Brasil em seu ramo de atuação após comandar a recuperação de uma cirurgia do ex-campeão do Pride e do UFC, em 2010. À época, o trabalho possibilitou a volta do ídolo aos octógonos, após quase dois anos afastado. Desde então, a profissional é extremamente requisitada, inclusive por Anderson Silva, outro ícone mundial das artes marciais mistas, com quem trabalha há oito anos.

O Sport Insider bateu um papo com Angela, para saber um pouco mais sobre como é a rotina de uma fisioterapeuta. Além de lutadores e outros atletas de alto rendimento, ela também trabalha com coreógrafa Déborah Colker, por exemplo, uma das mais respeitadas no Brasil e no mundo da dança, por suas performances.

Angela também contou um pouco sobre a sua trajetória no mercado esportivo. E como faz para dividir o seu tempo entre os grandes atletas e os pacientes que atende em consultórios e em domicílio.

Começo da história com Minotauro

Nascida em Além Paraíba (MG), Angela Côrtes se formou em fisioterapia, há 25 anos, pela Universidade Católica de Petrópolis (RJ). E ao longo de toda sua carreira, já trabalhou com atletas de alta performance do tênis, basquete, natação, ciclismo, lutas e futebol, além de atletas amadores e não atletas.

Ela não conhecia o MMA até começar o tratamento de Minotauro. E a indicação de seu nome para o campeão dos octógonos foi feita pelo Dr. Marc Philippon, uma das maiores referências do mundo em cirurgias ortopédicas, que, entre outros atletas, também foi responsável por operar o tenista Gustavo Kuerten, anos antes, de um problema no quadril.

Fisioterapeuta - Angela Côrtes
Minotauro, Anderson e Angela

“Conhecer o Minotauro foi uma feliz coincidência. Estive por duas temporadas, em 2010, na cidade de Vail, no Colorado (EUA), acompanhando o Doutor Marc Philippon e também no centro de reabilitação esportiva da Howard Head Sports Medicine, o que me permitiu aperfeiçoar, desenvolver meus conhecimentos e interagir com profissionais da área de saúde. Quando o Rodrigo Minotauro decidiu fazer as duas cirurgias de quadril naquele ano, escolheu o Doutor Marc Philippon para operá-lo. E ele, por sua vez, ao realizar a primeira delas, sugeriu que, caso a recuperação se passasse no Brasil, o trabalho de fisioterapia fosse feito comigo”, conta Angela.

Meta: recuperação e volta aos octógonos

Minotauro chegou ao consultório da fisioterapeuta no final daquele ano para o início da reabilitação. E para a preparação para uma segunda cirurgia. Antes do início dos trabalhos, Angela conta que perguntou quais eram os objetivos do lutador, que não atuava desde fevereiro de 2010, quando foi derrotado por Cain Velasquez no UFC 110, numa luta que valia a chance de voltar a disputar o título dos pesados da organização.

“Ele me disse gostaria de voltar a e que não conseguia nem mais ver lutas. A partir daquele momento iniciamos a fisioterapia focada nesse objetivo, para que ele voltasse a lutar, pois era o que lhe fazia feliz”, diz a fisioterapeuta.

Logo após a segunda cirurgia, ainda na fase de recuperação, Minotauro soube que em agosto de 2011, o Brasil voltaria a sediar um evento do UFC, no Rio de Janeiro. O primeiro, e até então único, havia acontecido nos primórdios da organização, em São Paulo, no ano de 1998. O lutador consultou Angela se teria condições de lutar. E ela topou o desafio de recuperá-lo.

Uma noite gloriosa

Na noite do dia 27 de agosto de 2011, diante de uma arena lotada no Rio de Janeiro, Minotauro retornou aos octógonos. E ganhou o prêmio de nocaute da noite ao derrubar o norte-americano Brendan Schaub com uma sequência de socos em menos de três minutos no primeiro round.

“Eu disse que ele poderia lutar no Rio. E começamos a trabalhar oito horas por dia, de março até agosto daquele ano, após uma cirurgia de joelho e duas de quadril. Contrariando a tudo e a todos. Só eu e ele acreditávamos que seria possível! Conseguimos que ele ficasse pronto para a luta. E o final vocês já sabem! Por isso ele acabou dizendo que eu era o anjo da guarda dele. Segundo ele, foi por eu ter acreditado e tê-lo feito retornar ao octógono, com uma recuperação acelerada, quando todos esperavam a aposentadoria dele no esporte”, lembra Angela.

Respeito à individualidade de cada paciente

De acordo com a profissional, o trabalho com atletas de alta performance é intenso. E devem ser respeitadas suas individualidades. Ela preta que é preciso haver uma motivação e que fisioterapeuta e paciente devem estar em sinergia. Além disso, é um trabalho multidisciplinar, em que outros profissionais da área de saúde participam, juntamente com o médico.

“Quando um lutador, por exemplo, está sem lesão, fazemos um trabalho de prevenção durante a preparação para as lutas. Já quando ele está lesionado ou no pós-cirúrgico, realizamos o curativo. A tendência é o de um lutador de MMA é se machucar nos treinos de preparação para as lutas. Por isso, é necessário transmitir para eles um trabalho preventivo, onde até o uma boa noite de sono faz parte do ‘treino’. Para que ele possa estar descansado para as atividades do dia seguinte! Ao longo desses anos de trabalho com atletas profissionais, amadores e não atletas, desenvolvi um conceito em fisioterapia, voltado para reabilitação e retorno rápido às atividades, respeitando-se as individualidades de cada paciente. E os resultados têm sido excelentes. Em particular com os atletas de alta perfomance, que em curto espaço de tempo retornam aos treinos em suas modalidades esportivas”, revela a fisioterapeuta.

Entre treinamentos, viagens e consultórios

Angela em sessão de fisioterapia com Rogério Minotouro

A rotina de Angela é intensa. A maior parte do seu tempo é dedicada aos pacientes. Nos períodos de luta dos atletas, sua equipe de fisioterapeutas prossegue com os atendimentos, para que ela possa viajar com os lutadores. Desde o primeiro UFC Rio, em 2011, ela companha o lutador Anderson Silva, nos treinos e na parte prevenção de lesões. Assim Rogério Minotouro, irmão gêmeo de Minotauro, ainda em atividade pelo UFC.

“Adoro o meu trabalho, então acordo e começo a trabalhar cedo e não tenho tempo ruim!. Me desdobo em atendimentos nos consultórios e em domicílio. Para a luta mais recente do Anderson, por exemplo, em fevereiro, na Austrália, fui para os Estados Unidos acompanhar a preparação dele e depois viajei para Melbourne. Quando o UFC é no Rio, como vai ser em maio deste ano, aí eu já consigo conciliar as duas atividades”, revela a fisioterapeuta.

Angela com a equipe de Anderson Silva, nos treinamentos para a luta mais recente do ex-campeão

Especialidades da fisioterapeuta

Dentro da fisioterapia, há diversas especialidades. Da cardiorrespiratória à neurológica, passando pela ortopedia e traumatologia, por exemplo. Ao longo de seus 25 anos de carreira, Angela procurou focar na parte neurológica.

“Iniciei minha especialização na área de Neurologia, com ênfase no Desenvolvimento Motor da Criança nos primeiros anos de vida, passando pelos estudos de vários sistemas: cognitivos, sensoriais, perceptivos e motivacionais. Com todos esses estudos e trabalhando meus oito primeiros anos na prática neurológica, desenvolvi o olhar clínico e o entendimento de que cada paciente tem que ser respeitado na sua individualidade. Procuro observar o paciente como um todo. E assim desenvolvo as estratégias de tratamento e movimentos que o ajudarão a evoluir em qualquer tipo de lesão. Sempre busquei desenvolver meu trabalho nos objetivos do paciente e não nos meus. Pois assim atingimos o motivacional, que é muito importante para a evolução e o sucesso de um tratamento”, diz Angela.

Fisioterapia e o mercado esportivo

Por fim, perguntamos a Angela o que um profissional de fisioterapia pode fazer para trabalhar diretamente com o esporte de alto rendimento. E quais são as principais características que esse profissional deve ter para ter sucesso no mercado esportivo.

“Na minha opinião, a Fisioterapia no Brasil evoluiu muito. E os nossos fisioterapeutas são muito dedicados aos pacientes. Para trabalhar diretamente na área desportiva, como em qualquer das outras especialidades, defendo há pelo menos duas décadas que o fisioterapeuta precisa ter ‘Mão’! Ele tem em suas mãos a essência do seu trabalho. Os equipamentos e aparelhos são apoios e complementares à Fisioterapia. Para trabalhar diretamente com esporte, o profissional precisa ser brilhante no básico, fazer cursos na área, ser comprometido no que faz, entender que o trabalho multidisciplinar é o caminho para a reabilitação de pacientes, juntamente com os médicos, e associar a competência com a sorte para entrar no mercado”, finaliza Angela.