O UFC é a maior organização de MMA do planeta e neste sábado, 7 de maio, o brasileiro Charles “do Bronx” Oliveira lutará para defender o cinturão dos pesos leves pela segunda vez. O lutador, que hoje tem o recorde de finalizações do UFC (15), é mais um brasileiro a fazer história na organização, sua habilidade e carisma fazem com que ele tenha o carinho dos fãs por todo o mundo. Agora, “do Bronx” enfrentará seu maior teste para provar a todos que é o melhor peso-leve do mundo.

Sobre o UFC

Antes de falarmos sobre Charles, vamos contextualizar um pouco sobre o que é a organização. O Ultimate Fighting Championship (UFC) é a maior e mais popular organização de MMA no mundo, reconhecida por ter os melhores lutadores e as melhores lutas do mundo. O UFC possui doze categorias de peso (oito masculinas e quatro femininas) e tem sua base atualmente em Las Vegas, nos Estados Unidos. As suas categorias e os atuais campeões são respectivamente:

Categoria Peso Atuais campeões
Peso Palha (Strawweight) Até 52,2kg (Feminino) Rose Namajunas
Peso Mosca (Flyweight) Até 56,7kg (Masculino e Feminino) Deivison Figueiredo e Valentina Shevchenko
Peso Galo (Bantamweight) Até 61,2kg (Masculino e Feminino) Julianna Peña e Aljamain Sterling
Peso Pena (Featherweight) Até 65,8kg (Masculino e Feminino) Amanda Nunes e Alexander Volkanovski
Peso Leve (Lightweight) Até 70,3kg (Masculino) Charles “do Bronx” Oliveira
Peso Meio-Médio (Welterweight) Até 77,1kg (Masculino) Kamaru Usman
Peso Médio (Middleweight) Até 83,9kg (Masculino) Israel Adesanya
Peso Meio-Pesado (Light Heavyweight) Até 92,9kg (Masculino) Glover Teixeira
Peso Pesado (Heavyweight) Até 120,2kg (Masculino) Francis Ngannou

Os lutadores se enfrentam em um ringue de oito cantos (octógono) e, na maioria dos combates, são três rounds (assaltos) de 5 minutos. Porém, as lutas principais e os combates de decisão do título possuem cinco rounds de 5 minutos. As vitórias são definidas por nocaute – golpes baixos não são permitidos –, desistência ou, caso o tempo de luta acabe e não haja nenhum dos dois, a vitória é decidida pelos árbitros.

Normalmente, o UFC promove 12 eventos principais por ano. A organização sempre tenta encaixar em datas consideradas datas chaves em seu calendário, nas quais a empresa se prepara para ter as melhores lutas do ano. Geralmente, essas datas são o fim ou o começo do ano, o feriado de 4 de julho e o dia anterior ao Super Bowl, um dos eventos mais assistidos do mundo.

Em 2020, o UFC era a oitava marca esportiva mais valiosa do mundo, com valor aproximado de 2,4 bilhões de dólares, graças à alta audiência e à valorização da marca, que tem crescido ano após ano.

Valores recebidos pelos lutadores

Um lutador de UFC não tem um salário fixo. Os atletas são pagos por luta com valores que variam conforme seu peso, os patrocínios que ele é capaz de atrair, o engajamento do público, a importância do evento, as vendas de pay-per-view e ingressos, entre outras fontes de renda. Um fato interessante é que provocar seus adversários na pesagem ou tomar atitudes semelhantes, que gerem engajamento do público, pode aumentar a renda do lutador.

O dono da companhia, Dana White, recebe duras críticas por conta desse modelo, uma vez que uma lesão, por exemplo, afeta diretamente o salário do atleta e isso ocorre com frequência quando o atleta está trabalhando. Mesmo assim, o UFC oferece um valor para os lutadores apenas por cada participação no octógono, que pode aumentar em caso de vitória.

Além disso, o torneio oferece algumas bonificações para aumentar a renda. Em cada evento, o campeonato premia em dinheiro os vencedores das categorias “Luta da Noite”, “Nocaute da Noite” e “Finalização da Noite”. Dana White paga 50 mil dólares para cada um desses prêmios e esse valor pode ser muito maior do que o recebido para a luta em caso de atletas menos conhecidos, o que é um incentivo a mais para se prepararem e apresentarem um bom espetáculo.

Grandes campeões

De Royce Gracie a Conor McGregor, a história do UFC está repleta de grandes lutadores que marcaram suas gerações e se tornaram ídolos para muitos. Para relembrar as trajetórias destes atletas, vamos citar alguns deles, seus números e recordes na organização e como estão marcados na memória do público até hoje.

  • Royce Gracie: O vencedor do primeiro evento promovido pela organização (UFC 1), no dia 12 de novembro de 1993, mostrou ao mundo a força do Jiu-Jitsu brasileiro ao vencer 3 adversários na mesma noite. Em uma época em que as regras da organização eram muito diferentes, Royce fez história e trouxe visibilidade ao evento, com um card de 11-1-1, ele é 3x vencedor do evento e faz parte do hall da fama do UFC, com certeza jamais será esquecido pelos fãs do esporte.
  • George St. Pierre: Conhecido como GSP, o canadense é um dos melhores meio-pesados da história da organização. Com um cartel de 26-2-0, ele defendeu o cinturão da categoria por 9 vezes e tem um recorde de 12 vitórias consecutivas. No seu auge, era praticamente imbatível, possuindo um domínio único, ele quase nunca perdia um round. Hoje, é mais um que faz parte do hall da fama do UFC e sempre está nas discussões de GOAT (Greatest of all time).
  • Anderson Silva: Para muitos, é considerado o GOAT, principalmente pelos brasileiros. Anderson marcou o UFC e trouxe visibilidade para o evento como nenhum outro atleta, mantendo o cinturão por 2.557 dias, um recorde no UFC. Ele possui 10 defesas de títulos e uma sequência de 16 vitórias consecutivas em sua carreira, com um cartel de 34-11-0. Em seu auge, toda luta era um show à parte, suas 11 derrotas são irrelevantes em comparação ao legado deixado, que marcou a organização com seus movimentos e estilo de luta únicos. Não à toa é conhecido como “spider” até hoje.
  • Jon Jones: Com um cartel de 26-1-1, se Jon Jones perdeu para alguém foi para ele mesmo. O campeão mais novo da história do UFC possui apenas uma derrota por conta de uma cotovelada ilegal e um empate por doping, ou seja, jamais um lutador foi superior a Jones dentro do octógono. Com apenas 23 anos, ele ganhou o cinturão pela primeira vez, mesmo com diversos problemas fora do cage, é uma lenda absoluta da organização.
  • Amanda Nunes: “A maior lutadora de MMA de todos os tempos”, essas foram as palavras que Dana White, dono do UFC, usou para se referir a Amanda Nunes. Com um cartel de 21-5, Amanda foi por muito tempo a única lutadora double-champ (campeã por duas categorias simultaneamente) da história, com 11 vitórias seguidas. Nos últimos meses, ela perdeu este posto, mas seu nome está marcado não só na organização, mas no esporte. Junto à Ronda Rousey, ela é uma das atletas que mais trouxe visibilidade à luta feminina.
  • Khabib Nurmagomedov: Imbatível é uma palavra que pode definir o lutador russo. Com um cartel de 29-0, ele se aposentou sem nunca ter perdido uma luta. Sempre presente nas listas de melhores da história, Khabib disputou 60 rounds, tendo perdido somente 2 – o terceiro contra McGregor no UFC 229 e o primeiro contra Justin Gaethje no UFC 254. O russo foi dominante em uma das divisões mais difíceis de todos os tempos e é considerado por muitos o melhor grappler já visto no esporte. Khabib “the eagle’ Nurmagomedov se aposentou em 2020 após a morte de seu pai e, com certeza, é uma das lendas incontestáveis do UFC.
  • Conor McGregor: O campeão que mudou o UFC. McGregor não é importante somente dentro do octógono, mas também fora dele. O primeiro double-champ da organização possui um cartel de 22-6 e mudou a forma como se faz publicidade para uma luta, se tornando o atleta mais influente da história do evento, ao alcançar números de audiência e valores que nenhum outro lutador jamais havia conseguido. Seu estilo único e suas coletivas de imprensa que incendeiam o público inspiraram diversos lutadores e trouxeram telespectadores de todo o mundo.

O Brasil no UFC

O Brasil é um dos países que possui grande participação no sucesso da organização. Portanto, para falarmos sobre a trajetória de Charles, precisamos abordar os brasileiros em que ele se inspira para continuar construindo a história do país na organização. O Brasil possui o primeiro campeão do UFC, a melhor lutadora da história da organização, o maior vencedor de todos os tempos e é o segundo país com maior quantidade de vencedores (19), atrás apenas dos Estados Unidos (63).

Glover Teixeira, Deiveson Figueiredo, Amanda Nunes e Charles do Bronx são os atuais brasileiros que possuem um cinturão do UFC, o que torna o Brasil o país que conta com mais campeões, dessa vez superando os EUA, que ficam em segundo com três campões. A tradição é tanta que existem brasileiros que nunca foram campeões, mas possuem marcas expressivas e são reconhecidos na organização. Um deles é Demian Maia, detentor do segundo maior número de vitórias por finalização (11), atrás somente de Charles Oliveira (15). Confira abaixo todos os brasileiros campeões e seus respectivos títulos:

CampeõesTítulos
Royce Gracie Campeão do UFC 1, 2 e 3
Marco Ruas Campeão do UFC 7
Vitor Belfort Campeão do UFC 12 e dos meio-pesados em 2004
Murilo Bustamante Campeão dos médios em 2002
Anderson Silva Campeão dos médios de 2006-2013
Rodrigo Minotauro Campeão interino dos pesados em 2008
Lyoto Machida Campeão dos meio-pesados em 2009
Maurício Shogun Campeão dos meio-pesados 2010
José Aldo Campeão dos penas de 2009-2014 e 2016
Júnior “Cigano” Campeão dos pesados de 2011-2012
Renan Barão Campeão dos galos 2012-2014
Fabrício Werdum Campeão dos pesados 2014-2016
Rafael dos Anjos Campeão dos leves 2015-2016
Amanda Nunes Campeã dos galos 2016-2021 e dos penas 2018- presente
Cris “Cyborg” Campeã dos penas 2016-2017
Jéssica Andrade Campeã dos palhas em 2019
Deiveson Figueiredo Campeão dos moscas 2020 e 2021-presente
Charles do Bronx Campeão dos leves de 2021-presente
Glover Teixeira Campeão dos meio-pesados de 2021-presente

A história de Charles “do Bronx”

No dia 17 de outubro de 1989, no Guarujá, cidade litorânea de São Paulo, nascia Charles Oliveira da Silva, conhecido hoje como Charles do Bronx. De origem humilde, seu apelido vem da comparação entre o bairro em que morava, Vicente Carvalho, e a região do Bronx, em Nova Iorque. De acordo com ele, “do Bronx”, além de representar a favela, era um apelido impactante e, no seu início de carreira, soava bem melhor do que somente Charles Oliveira.

A sua história de superação começa bem antes dos 10 anos como lutador do UFC. Como a maioria das crianças brasileiras, Charles tinha o sonho de se tornar jogador de futebol. Porém, em 1996, aos 7 anos de idade, ele começou a sentir dores no corpo, problemas para andar e, em certos momentos, não conseguia nem mexer suas pernas. Charles foi diagnosticado com febre reumática (doença inflamatória que afeta o coração, articulações, pele e cérebro) e sopro no coração e o médico disse aos seus pais que ele poderia ficar paraplégico. Os seus pais não aceitaram o fato, deixaram o menino continuar praticando esportes e, com o tempo, os exames não alertavam mais a presença das doenças em seu corpo.

Aos 12 anos, o jiu-jitsu entrou na sua vida para nunca mais sair. Apresentado a uma academia por um amigo de sua mãe, ele conseguiu bolsa para treinar e teve uma rápida evolução dentro do esporte. Demonstrando vocação para a luta, com 2 meses Charles já era campeão paulista em sua modalidade. Hoje, ele é faixa preta e considerado por muitos o melhor lutador de jiu-jitsu dentro do UFC.

De 2008 a 2010, Charles disputou torneios nacionais e, com um cartel invicto de 12 vitórias, chamou a atenção da organização de Dana White. A partir daí, ele começou a integrar o UFC, onde, com somente 21 anos, ele fez sua estreia e venceu, mostrando seu BJJ (Brazilian jiu-jitsu) característico, ganhando um bônus por ser eleito na categoria “finalização da noite”.

A sua trajetória dentro da organização é a de um verdadeiro guerreiro, o seu crescimento não foi exponencial e seu auge demorou a chegar, mas Charles nunca desistiu. Com um cartel de 32-8 no MMA e 20-8 no UFC, o atual campeão dos leves passou por altos e baixos na organização. Desde a sua primeira até sua vigésima luta, a carreira de Charles do Bronx parecia uma montanha-russa, sempre que conseguia uma sequência de vitórias era interrompido por uma derrota, ou todas as vezes que enfrentava um lutador renomado, que o faria subir de patamar caso vencesse, ele era derrotado, foi assim contra Max Holloway, Anthony Pettis e Paul Felder. Enquanto não engatava uma sequência para disputar um cinturão, ele ia acumulando finalizações e trocando de categoria entre os penas e os leves, até que, no ano de 2018, as coisas começaram a mudar.

No dia 6 de junho de 2018, Charles finalizou Clay Guida e ganhou o bônus de “performance da noite”. Três meses depois, ele ganhou novamente, desta vez em São Paulo, sua cidade natal, batendo o recorde de finalizações do UFC (11 na época) e ganhando mais um bônus por performance. Daí em diante “do Bronx” nunca mais parou, são 10 vitórias consecutivas, 8 performances da noite e 2 vitórias em lutas que valiam o cinturão, conquistando vitórias contra lutadores como Kevin Lee, Tony Ferguson e Michael Chandler, o que lhe possibilitou tomar o cinturão que Khabib Nurmagomedov deixou vago. Logo depois, ele venceu Dustin Poirier, um dos grandes lutadores da história dos leves, na sua primeira defesa de cinturão.

Charles sempre foi criticado por seu baixo poder de fogo enquanto está em pé, mas isso parece ter mudado. Em suas 2 últimas lutas, ele conectou socos perigosos e ganhou o seu cinturão através de um nocaute, aplicado com a mão esquerda em Michael Chandler. Hoje, ele parece um dos lutadores mais completos da categoria, capaz de se adaptar ao estilo de luta de seus adversários.

Estatísticas de Charles “do Bronx” Oliveira

Agora, Charles tem a chance de sacramentar seu reinado e surpreender o mundo mais uma vez, na luta contra Justin Gaethje, ex-campeão interino da organização. Ganhando ou perdendo, ele sempre terá o apoio torcida brasileira e, principalmente, dos jovens de sua cidade, que o apelidaram de “novo Senna” em alusão ao ídolo brasileiro da Fórmula 1. Como brincou Joe Rogan, comentarista do UFC, esta é a “OlivEra” (trocadilho com uma junção do sobrenome de Charles, “Oliveira”, e da palavra “era”, em português) e seus fãs esperam que ela continue.

Informações sobre a luta

A próxima luta de Charles “do Bronx” ocorrerá neste sábado (7), contra o americano Justin Gaethje pelo evento UFC 274 no Footprint Center em Phoenix, nos Estados Unidos. O confronto, que vale o cinturão dos pesos leves, será transmitido no Brasil pelo Canal Combate, pay-per-view do Grupo Globo, que transmite todas as lutas da organização. Aos 32 anos, o paulista vive seu melhor momento na carreira e chega para o confronto como favorito após ter conquistado 10 vitórias nos últimos 10 confrontos.

Atual 1º colocado no ranking dos leves, o norte-americano Gaethje terá sua segunda oportunidade de conquistar o título da divisão. Em 2020, ele foi finalizado por Khabib Nurmagomedov. Em sua luta mais recente, ele venceu Chandler por decisão dos árbitros na “Luta da Noite” do UFC 268, o que fez ele conseguir a oportunidade de disputar o cinturão com Charles.

Por Rafael Caldas e Igor Fernandes