O podcast de negócios esportivos da Bloomberg (“Bloomberg Business of Sports”) entrevistou Andrew Zimbalist, economista americano, professor na Smith College, e autor do livro “Circus Maximus: The Economic Gamble Behind Hosting the Olympics and the World Cup” (“Circus Maximus: A aposta econômica por trás de sediar os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo”, em tradução livre). Aqui você encontra os principais pontos levantados pelo entrevistado sobre o tema: sediar as Olimpíadas.

Tóquio 2020

Um dos primeiros pontos abordados por Andrew Zimbalist é o adiamento dos Jogos em 2020. A cidade de Tóquio não tinha nenhum tipo de seguro sobre cancelamento ou postergação do evento. O economista comenta como isso pode desencadear em uma tendência para as próximas cidades sede, que buscarão a compra de serviços de seguro. Ainda nesse tópico, ele reforça como esses imprevistos rapidamente se tornam publicidade negativa para o país e cidade sede. No caso de Tóquio, que ativou o seu estado de emergência durante o período dos Jogos e não terá nenhum tipo de atividade econômica em funcionamento, pode chegar a ter custos estimados em mais de 30 bilhões de dólares. Considerando que as receitas geradas nesse mesmo intervalo de tempo, por meio de cobertura internacional de TV e patrocínios, devem chegar à um patamar de 4,5 bilhões de dólares, o prejuízo de sediar as Olimpíadas é certo.

O que diz o histórico?

Segundo Andrew, no geral, a maioria das cidades que recebem as Olimpíadas saem no prejuízo, ou no zero a zero. O entrevistado volta no tempo até os Jogos Olímpicos no México, em 1968, onde esse paradigma se iniciou. De lá para cá, houve uma quebra dessa percepção negativa, após o evento de Los Angeles, em 1984, que foi um ponto de inflexão e alavancou a demanda de países interessados em sediar os Jogos. Essa onda durou até o inicio do século atual, quando custos explodiram e o Comitê Olímpico Internacional (COI) viu sua reputação e a demanda pelos Jogos despencar. Zimbalist cita como exemplo o leilão pelas Olimpíadas de Inverno de 2022, que contava inicialmente com sete interessados, até que cinco cidades européias se retiraram, deixando a disputa entre Almaty (Cazaquistão) e Beijing (China).

Influência de forças políticas e econômicas locais

Andrew Zimbalist ainda comenta como a dinâmica de licitação para sediar os Jogos Olímpicos é baseada na indústria de construção dos países. São criadas alianças dentro desse setor para pressionar o governo local a entrar no leilão para sediar o evento, uma vez que, para isso, são necessárias pelo menos 40 instalações esportivas, e muitas cidades não tem esses estabelecimentos. Mais do que isso, se as cidades não contam com essas estruturas, deve haver um motivo, e esse motivo muito provavelmente envolve a falta de demanda econômica para tal nível de infraestrutura. Portanto, de acordo com o entrevistado, os lances feitos pelas cidades interessadas em sediar os Jogos não são baseados em uma análise racional, mas nos interesses de forças políticas e econômicas locais.

Olimpíadas X Copa do Mundo

Por fim, o professor apresenta a diferença entre sediar as Olímpiadas e uma Copa do Mundo. A sua visão é de que, pelo menos para os últimos dez ou quinze anos, são experiências diferentes. A FIFA conseguiu se reestruturar consideralvemente, após a série de envolvimentos em escândalos, e transformar a sua relação com os países sede. A Federação se compromete a cobrir todos os custos operacionais do evento, garantindo um nível baixo de custos para o anfitrião. Além disso, a maioria dos países já conta com estádios e instalações para futebol, o que significa que os problemas de segurança e logística são minimizados. Esses são alguns dos motivos pelos quais a FIFA não está enfrentando os mesmos problemas do COI para encontrar sedes para seus eventos futuros.

Conclusão

Apesar dos diversos legados positivos que os Jogos Olímpicos podem proporcionar para uma cidade sede, recebê-los tem se tornado um fardo cada vez mais pesado. Depreciada ainda mais pelo cenário de pandemia e os resultados econômicos negativos de Tóquio 2020, a aposta por trás de sediar as Olimpíadas parece estar se tornando cada vez menos favorável e atrativa para quem joga as suas fichas.