Por que o esporte é um bicho raro no ecossistema de ativos financeiros

Por Rafael Pedreira* 24/03/2026 | 10h00
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RedBird é acionista majoritária e administradora do Milan, na Itália. (Foto: AC Milan)

 

LaLiga, Paramount, Milan. O que esses três negócios têm em comum? Todos receberam investimentos de fundos de private equity e venture capital. City Football Group, McLaren e WSL também. Em diferentes modalidades esportivas, o esporte se tornou uma classe de ativo para o mercado financeiro.

 

Nos Estados Unidos, o processo está mais consolidado. Franquias de NFL, NBA, MLB e NHL, entre outras ligas menores, permitem investidores institucionais no seu captable (quadro de sócios). Fundos como KKR, Ares Management e RedBird somam mais de US$ 20 bilhões em AuM (assets under management, ou ativos sob gestão).

 

O movimento é global, no entanto.

 

No Brasil, o catalisador foi a Lei da SAF, que basicamente incentiva os clubes de futebol a se tornarem empresas. Ao organizar a estrutura societária não mais como associação civil sem fins lucrativos, a entidade se abre para investimentos de acionistas, saneamento de dívidas, distribuição de lucros.

 

É evidente que o futebol se tornou uma classe de ativo, inclusive no mercado brasileiro. A XP auxiliou na estruturação da FFU e na intermediação das vendas de clubes, como Botafogo e Cruzeiro. A Treecorp, fundo de private equity, comprou o Coritiba. O BTG trabalhou para a SAF do Atlético-MG.

 

É claro que o investidor brasileiro olha com desconfiança, pois há muito ruído, mas o esporte reúne atributos raros no universo de ativos financeiros:

 

  • Classe de ativo alternativa; características próximas a private equity e mid-cap growth;

 

  • Receitas previsíveis e estáveis no longo prazo;

 

  • Empresas de mídia — Netflix, Amazon Prime, Globo, etc — usam o esporte para gerar conteúdo e criar valor para anunciantes (advertising value);

 

  • Baixa correlação com classes tradicionais;

 

  • Escassez de ativos e barreiras de entrada elevadas;

 

  • Demanda global e emocionalmente engajada;

 

  • Entidades esportivas combinam três naturezas de negócio: mídia, real state e propriedade intelectual. Essa convergência sustenta valuations sólidos e abre janelas de oportunidade para investidores com visão de longo prazo.

 

Quando bem estruturado, o capital agrega profissionalização, governança e eficiência operacional. Mas impõe um dilema: como equilibrar retorno financeiro com a preservação da identidade que deu origem ao valor do ativo? O capital por si só não garante sucesso, é preciso estratégia, coerência e alinhamento.

 

Estou no esporte desde 2004. A primeira vez que vi tantas oportunidades ocorreu entre 2012 e 2016, com a realização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos no Brasil. Agora se abre uma nova janela para transformações estruturais no esporte brasileiro, mesmo que elas ocorram de fora para dentro.

 

*Rafael Pedreira é managing director da Quartam Sports Capital, braço de investimentos da SISU Ventures.

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